Texto: Vivian Schetini
Especial para o Jornal do Commercio
"Garçom, um chopp!”O tradicional – e genérico – pedido está perdendo lugar nas mesas de bar cariocas para as cervejas que têm nome, sobrenome e até “pedigree”. Em um mercado apaixonado pela bebida e no qual predominam as marcas produzidas industrialmente pelas grandes nacionais e multinacionais do setor, as cervejas artesanais vêm conquistando mais adeptos, principalmente entre os públicos de maior poder aquisitivo
Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Cerveja (Sindcerv), o Brasil só perde, em volume, para a China (35 bilhões de litros/ano), Estados Unidos (23,6 bilhões de litros/ano), Alemanha (10,7 bilhões de litros/ano). O consumo da bebida, em 2007, apresentou crescimento em relação ao ano anterior, totalizando 10,34 bilhões de litros.
A bebida mais amada do Brasil, como não poderia deixar de ser, fez nascer uma legião de apreciadores mais ávidos por novidades e, principalmente por qualidade. Apesar disso, segundo um dos fundadores da Associação dos Cervejeiros Artesanais Cariocas (ACervA Carioca), Leonardo Botto, o Rio avançou menos no segmento que estados como São Paulo, Minas, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
“Acredito que isso ocorreu em função do grande domínio exercido por algumas marcas famosas e com grande produção”, explica Botto.
O futuro do mercado da cerveja artesanal carioca é muito promissor, segundo ele. “Novas cervejarias estão nascendo, Duas já em 2008, outra prevista para 2009. Bares com cartas de cervejas se multiplicam pela cidade, e, mesmo com toda falta de informação, o número de consumidores interessados por cervejas de qualidade cresce exponencialmente”, detalha.
Para Botto, o crescimento é inevitável. “Traçando um paralelo com alimentação, há 15 anos quem consumia presunto diariamente era rico. Com o aumento do poder de compra e, principalmente, maior difusão de informações, os consumidores procuram se vestir melhor, se alimentar melhor, beber melhor. Buscam por produtos de melhor qualidade. Óbvio que a cerveja artesanal nunca dominará o mercado, nem é este seu objetivo, mas seu espaço é certo. Hoje o setor de cervejas especiais cresce anualmente duas vezes mais que o setor de standards, e este crescimento continuará ainda por algum tempo”, analisa.
A ACervA Carioca nasceu da necessidade de união para aquisição de matérias primas (que são todas importadas) e equipamentos em melhores condições. “O objetivo era gerar condições mínimas de sobrevivência para o nosso hobby. À medida que crescíamos, o que era sonho começou a ser palpável. A difusão da cultura cervejeira ganhou força através de cursos, palestras, encontros e concursos promovidos pela ACervA”. Botto deixa claro que a associação não tem fins econômicos. “Nosso patrão é a cultura cervejeira, sendo a ACervA, hoje, composta em sua maioria por cervejeiros e degustadores”, explica.
Crescimento
Nesse contexto, a ACervA Carioca vem fazendo “trabalho de formiguinha” no compartilhamento de informações, com cursos, degustações orientadas e eventos em geral. A proposta é contribuir para o crescimento do setor, como fez a Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) com os vinhos há 10anos.
De forma geral, as cervejas artesanais são diferenciadas pela forma de produção, afirma o cervejólogo belga Xavier Depuydt, que trabalha com cerveja há mais de 25 anos. “Elas são especiais e por isso agradam paladares mais sofisticados. Mas não existe cerveja ruim, apenas tipos diferentes para cada paladar”, afirma.
Depuydt explica que no Rio de Janeiro o mercado de cervejas artesanais é muito complexo. “O carioca não admite pagar por uma cerveja nacional o mesmo peço que uma importada. Por isso, as artesanais saem em desvantagem, já que seus preços são compatíveis com as estrangeiras”.
Segundo o cervejólogo, o preço das artesanais são mais altos pelo modelo de fabricação. “A produção é menor, a matéria prima é mais selecionada, geralmente só usam ingredientes importados”. E conclui que “é preciso ter cultura para apreciar uma boa cerveja, não é simplesmente sentar e beber, tem que degustar para perceber o aroma, o sabor, e para isso é necessário ir a lugares adequados que onhecem o produto que estão servindo”
Röter Brauhof tem planos para expandir a produção
Uma das mais recentes cervejarias do mercado é a Röter Brauhof, que está fabricando cerca de 20 mil litros de cerveja artesanal por mês em Vassouras. Os sócios Marcelo Leite e Leonardo Toledo estão há pouco tempo no mercado, mas já pensam em expansão. O objetivo de produção da dupla é chegar a 80 mil litros por mês; um bar próprio também está nos planos dos sócios.
“A idéia é trabalhar o mercado carioca, pois o poder aquisitivo no Rio é bom para os negócios. Hoje, estamos com seis parceiros de vendas, e pretendemos expandir, mas sem perder o foco no Rio de Janeiro”, afirma Toledo.
“Estamos trabalhando com a micro cervejaria já há algum tempo, mas há apenas 2 meses entramos realmente no mercado. Para o futuro da empresa, já estamos estudando novas fórmulas, diferenciadas. E a curto prazo, queremos engarrafar o produto. Não queremos nos tornar uma grande cervejaria em termos de produção. Queremos ter mais qualidade”, completa Leite.
A cerveja Röter Brauhof é produzida segundo os padrões da lei alemã promulgada pelo duque Guilherme IV da Baviera, em 23 de abril de 1516. A Lei da Pureza da Cerveja estabelece que a bebida deve ser fabricada tendo como ingredientes apenas água, malte, fermento e lúpulo.
Atualmente, com exceção à Alemanha, cereais como milho, arroz e trigo também são utilizados em substituição parcial ao malte. O açúcar, em pequenas proporções, também pode ser utilizado.
Marcelo Leite conta que a estratégia da Röter é resgatar a nobreza que a cerveja representa. "Atualmente a cerveja é muito popular. O que queremos é resgatar a nobreza da bebida, respeitando a lei de pureza, mas com uma pequena adaptação aos gostos brasileiros, à modernidade”, detalha.
Para isso os sócios viajaram pela Europa pesquisando sobre a bebida. “O primeiro passo foi descobrir sabores, aromas e cremes ideais. Em seguida a busca por ingredientes perfeitos, a matéria prima tinha que ser muito boa, e conseguimos”, recorda Leite.
A cerveja artesanal utiliza matéria prima importada, “de primeira qualidade”, além de uma produção em escala menor, o que torna o custo mais alto. “Porém, a diferença de preço com as cervejas mais populares é baixa, o que faz nosso produto ser altamente competitivo no mercado carioca”, afirma Toledo.
Por isso, segundo ele, entre outros fatores, vem agradando principalmente o público feminino. “Nossa cerveja é feita com triplo lúpulo, o que a deixa equilibrada em relação ao amargo e o doce, agradando aos paladares mais sofisticados”.
Uma das características do chope Röter é o processo lento de fermentação e maturação, por não levar enzimas. “Não trabalhamos com estabilizantes químicos. Isso deixa o sabor da cerveja mais agradável, e o prazo de validade um pouco menor, para o cliente isso é a garantia de um produto sempre novo e saboroso”, explica.
Mistura Clássica começou local e ganhou mercado
Outra marca bem conhecida no Estado do Rio de Janeiro é a Mistura Clássica. A cervejaria nasceu em 2003 e hoje produz 25 mil litros da bebida por mês. A idéia inicial era atender a bares e restaurantes de Volta Redonda e adjacências. Hoje, a Mistura Clássica é comercializada em outros estados, como São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Bahia, Rio Grande do Sul e Paraíba.
O cervejeiro e responsável técnico pela produção e distribuição dos produtos Mistura Clássica, Severino Batista, diz que a expectativa é de crescimento em torno de 50% ainda em 2008. Para isso, estão sendo feitos investimentos na distribuição.
“Estamos ampliando o número de distribuidores na região Sudeste, principalmente Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Até o final do ano, também, vamos lançar mais três opções de cervejas no mercado”, conclui.
Segundo Batista, a aceitação do público foi muito boa. “A grande aceitação no mercado nos faz querer levar ao copo dos brasileiros cervejas com características especiais de corpo, aroma e sabor. É por isso que investimos na elaboração dos produtos e buscamos sempre atender a demanda, oferecendo aos nossos consumidores variedade e qualidade”, orgulha-se o cervejeiro.
A principal característica da Mistura Clássica, segundo ele, é a utilização de ingredientes de alto padrão de qualidade na elaboração dos produtos. “Além disso, possuímos uma receita única e artesanal, idealizada de acordo com a Lei de Pureza da Bavária”. No Bar da Fábrica, os reciadores podem degustar os sete tipos de cerveja produzidos no local.
Apesar da grande concorrência no Rio, Batista afirma que a Mistura Clássica já conquistou uma pequena, porém significativa, fatia do mercado carioca. “Considerando que só estamos há cinco anos nessa briga e nossos produtos são para um público específico e exigente, estamos satisfeitos com o resultado. Queremos mais e estamos trabalhamos para isso”, afirma.
Vivian,
ResponderExcluirParabéns pela reportagem, muiro bem escrita. Fiquei até com vontade de tomar um choop, e hoje não é sexta, hehe.
Sucesso!!!!!
EDU