segunda-feira, 30 de março de 2009

Nanotecnologia projeta lucros maiúsculos

Governo prevê receita de US$ 10 bilhões no setor em 2022

VIVIAN SCHETINI ESPECIAL PARA O JORNAL DO COMMERCIO

Materia publicada em 2007

Estudo comprova que, se houver investimentos adequados, o Brasil pode ser responsável por US$10 bilhões do mercado nanotecnológico em um prazo de 15 anos. O que significaria cerca de 1,3% do PIB da nanotecnologia do mundo, que possui previsão de estar em torno de US$1 trilhão em 2012. A nanotecnologia nada mais é do que a aplicação de estruturas atômicas para produção de cosméticos, eletrônicos entre outros.

A pesquisa mostra que o país já possui capacidade humana para tal desenvolvimento. Segundo um dos professores responsáveis pela publicação, o professor do Instituto de Química da Unicamp e Coordenador Cientifico do Laboratório de Química do Estado Sólido, Oswaldo Luiz Alves, esse foi um dos fatores que contribuiu para essa previsão. 'Temos muita gente capacitada no Brasil, estudando as nanoestruturas da natureza para aplicá-las no cotidiano,' se anima. Em grandes indústrias brasileiras de cosméticos, como a Natura, vários produtos já são desenvolvidos a partir da nanotecnologia, pois com a manipulação de nanoestruturas pode-se chegar a elementos com maior capacidade de reação, elementos mais leves. A nanotecnologia age dessa forma, também melhorando a qualidade e eficiência de produtos construídos pelo homem, como o I Pod, popular entre as pessoas, que muitas vezes nem sabem que uma tecnologia tão nova e avançada está presente naquele produto.

Só isso não basta, contudo, é necessário investir para que tanto os profissionais como patentes não sejam transferidos para outros países.

'Para chegarmos a tal conhecimento temos que caminhar em duas frentes. A nanociência, que é a geração de conhecimento, e a nanotecnologia que é a aplicação desses conhecimentos. Assim vamos evoluir e poder competir com vários países, desenvolvidos ou em desenvolvimento', completa.

Oswaldo conta que são aproximadamente 33 países desenvolvendo programas nacionais em nanotecnologia. 'Isso tem que se tornar estratégia de governo, como é feito em outras partes do mundo', conclui.

Investimentos na área estão em curso.

Entre 2001 e 2007 já foram empregados R$ 150 milhões em nanotecnologia através de ações do Programa Nacional de Nanotecnologia (PNN) fundos setoriais, subvenção econômica e editais. Desse total, R$ 70 milhões apenas nos últimos dois anos. O coordenador geral de Micro e Nanotecnologia do Ministério de Ciência e Tecnologia, Alfredo de Souza Mendes comenta que 'Países desenvolvidos que já investem no setor gastam cerca de US$ 1 bilhão. Investimentos que geram produtos inovadores e altamente competitivos. Por isso 'é tão importante o Brasil pensar estrategicamente a nanotecnologia'.

Para o professor Oswaldo 'é preciso ter marcos regulatórios muito bem definidos para que o processo evolua' O que é de comum acordo de Alfredo de Souza Mendes: 'O desafio é tentar manter esse patamar de investimentos e buscar a integração dessas iniciativas, através de um sistema rigoroso de acompanhamento, para verificar quais os resultados da aplicação desses recursos. É preciso mensurar para se fazer a análise do custo - benefício desse investimento', diz o coordenador.

Dados do Ministério da Ciência e Tecnologia revelam que, entre 2002 e 2005, as pesquisas envolveram 300 pesquisadores, 77 instituições de ensino e pesquisa e 13 empresas, mais de mil artigos científicos e mais de 90 patentes. Mendes diz que o Brasil tem cerca de 3 mil pesquisadores, envolvendo alunos e professores e '50 empresas envolvidas com projetos e desenvolvimento de produtos em nanotecnologia, interagindo com o setor acadêmico', disse. O emprego da nanotecnologia já movimenta bilhões de dólares a cada ano, se considerarmos os resultados obtidos a partir do registro mundial de patentes. Diante disso, muitos países, desenvolvidos ou não, tentam aprimorar seus conhecimentos. Cada país voltando as pesquisas e investimentos para o campo de melhor retorno.

O conhecimento atual sobre nanotecnologia possibilita a convergência de áreas do saber, como a biotecnologia, por exemplo. As regiões mais avançadas são a América do Norte, com destaque para os Estados Unidos; a União Européia, com destaque para Alemanha, Reino Unido e França, e Japão. Mercados em desenvolvimento como China, Índia, Coréia do Sul e o Brasil buscam aos poucos se adequarem às novas tecnologia.

Por volta de 2020, o mercado da nanotecnologia deve gerar receita de US$10 bilhões. Assim, o Brasil, poderá ser responsável por pelo menos 1% do total. No grupo em desenvolvimento, a China é a maior presença, já que possui uma produção que se aproxima da metade dos EUA, superando potências como Alemanha, França ou Reino Unido.

O que é mesmo nanotecnologia?

O professor Oswaldo Alves explica que 'A nanotecnologia é a fabricação ou manipulação de entidades que tenha pelo menos uma dimensão menor do que 100 nanômetros. Para efeito de patentes tem sido adotada, principalmente pelos EUA, uma definição que, além de levar em conta dimensões, considera também que as propriedades inovadoras destas entidades sejam decorrentes da nanoescala'. Para ficar mais claro, o professor afirma que isso eqüivale a dizer que nem tudo que é nanométrico é nanotecnologia.

Na natureza o professor exemplifica onde são encontradas estruturas nanométricas. 'As asas das borboletas possuem um brilho furta cor devido a presença de nanoestruturas, ou a tenacidade dos dentes, que nada mais é do que a capacidade de mastigação, está ligada a presença de nanoestruturas'.

Bons exemplos de como a nanotecnologia não é coisa do futuro e que já é parte do presente da ciência, é conhecer a aplicação desses estudos em linhas de cosméticos. 'Todos os protetores solares possuem nanoestruturas que ajudam na qualidade desses produtos, principalmente nos de fatores mais elevados', explica. Outro bom exemplo 'são os I-Pod's, tão comuns hoje em dia, e construídos graças a nanotecnologia. A memória flash desses aparelhos foi assimilada a partir dessa ciência'. Os principais competidores emergentes.

Veja o que o estudo sobre nanotecnologia diz a respeito de países que estão emergindo economicamente e que podem se tornar grandes mercados competidores, principalmente com avanços nesse tipo de pesquisa.

Coréia do Sul.

O país é extremamente competitivo em setores como semicondutores, mas precisa investir mais em áreas de materiais e tecnologia básica. O governo aprovou US$ 1,3 para pesquisa e desenvolvimento em nanotecnologia entre 2001 e 2010. Desde 2003, o governo empreende esforços para implementar a Lei de Promoção ao Desenvolvimento Nanotecnológico.

Índia.

A Iniciativa de Tecnologia e Ciência Nacional da Índia foi estabelecida em 2001 e tem por metas, além da pesquisa e desenvolvimento, a disseminação do ensino e da promoção da interação entre indústrias de nano e áreas conexas. Colaborações internacionais acontecem nas áreas de nanocompósitos, nanopartículas e outros materiais nanoestruturados. Um exemplo é o Centro de Nanomateriais com parcerias com distintos países como Rússia, Ucrânia, Japão, Alemanha e Estados Unidos. Numa situação similar à de outros países, como o Brasil, a Índia reconhece a lacuna existente entre pesquisa e sua comercialização posterior.

China.

A China investe em ciência e educação, já como pilares do seu desenvolvimento econômico. Há mais de 20 anos houve uma reformulação dessas áreas para a inclusão de ações que possibilitassem a subcontratação de projetos de pesquisa a organizações privadas de pesquisadores.

As principais agências de financiamento de pesquisa em nano no país são a Academia Chinesa de Ciências, a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, o Ministério da Educação, o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Comitê Nacional de Desenvolvimento e Planejamento.

As pesquisas são realizadas na sua maior parte em universidades. Há cerca de 50 universidades, 20 instituições e mais de 100 companhias realizando pesquisa e desenvolvimento, de acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia. A Academia Chinesa de Ciências é uma das instituições mais citadas na área de nanotecnologia.

E no estudo aparece como a que 'obtém os resultados mais importantes napesquisa de nanotubos de carbono, nanopartículas e pós, bem como conduz pesquisas em nanomateriais fotocatalíticos com aplicações na descontaminação de água, superplasticidade e extensibilidade de nanomateriais de cobre e materiais super-anfifóbicos, mas ela necessita de maior investimento em pesquisa de nanodispositivos quânticos e moleculares'.

A China ocupou a terceira posição em número de patentes depositadas, sendo responsável por 12% do total mundial, atrás de Estados Unidos com 32% e Japão com 21% respectivamente.

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